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Escrito por: Mariano Montoni

Quando: 28 de outubro de 2026

Alta maturidade do CMMI: como o controle estatístico de processo traz previsibilidade real a projetos de software

Controle estatístico de processo é o conjunto de técnicas que mede como um processo se comporta ao longo do tempo, separa a oscilação normal do funcionamento daquilo que é anomalia, e permite prever o que ele vai entregar antes de ele entregar. Nasceu na indústria nos anos 1920 e é o que sustenta a alta maturidade no CMMI, os níveis 4 e 5 do modelo. Aplicado a uma empresa de TI, ele responde a uma pergunta de negócio: a operação consegue cumprir o que está sendo prometido no contrato?

Previsibilidade em projetos de software costuma ser tratada como qualidade de gestor experiente, alguma coisa que se ganha com tempo de estrada e sensibilidade para reconhecer encrenca antes que ela apareça. Não é. Previsibilidade é uma propriedade mensurável do processo, e existe método para saber quanto ela vale hoje e para melhorá-la quando não é suficiente. Sem essa leitura, compromisso de prazo, de custo e de qualidade é estimativa apoiada em experiência pessoal. Com ela, compromisso passa a ser consequência do que o processo comprovadamente entrega.

Este artigo percorre esse caminho por dentro de dois cenários de decisão, um de software e um de serviços, do tipo que aparece na mesa da diretoria e precisa de resposta antes de assinar.

O pregão que só fecha com 20% de margem

Um pregão público é a oportunidade que chega a uma fábrica de software de porte médio. O escopo é conhecido, o prazo é apertado, e a disputa se decide no preço: para ter chance de vencer, a empresa precisa baixar o valor que cobra por ponto de função em relação ao que pratica nos contratos privados.

O desconto no preço do ponto de função não muda o trabalho que vai ser feito. Muda quanto sobra depois dele. Refeita a conta com o preço reduzido, o contrato só se sustenta se a operação entregar com pelo menos 20% de margem. Abaixo disso, a empresa passa a trabalhar para pagar o próprio retrabalho.

A pergunta que a diretoria faz é direta: conseguimos entregar dentro dessa margem?

Na maioria das empresas, a resposta sai da média dos projetos anteriores. Alguém abre a planilha, calcula a margem média dos últimos doze meses, encontra 23% e responde que sim, dá para ir. É uma resposta rápida, é uma resposta com números, e ainda assim é uma resposta que não responde à pergunta.

O desfecho conhecido desse caminho é a empresa vencer o pregão e descobrir, já com o contrato assinado, que o preço que ela mesma ofereceu não cabe dentro do que a operação consegue entregar. A essa altura não há mais decisão a tomar, só prejuízo a administrar.

Por que a média histórica não responde à pergunta?

A média informa onde o processo costuma cair. Ela não informa o quanto ele oscila em torno disso, e é a oscilação que decide se o contrato fecha no azul ou no vermelho. Uma operação com margem média de 23% pode ter entregado projetos entre 21% e 25%, o que torna o pregão seguro, ou pode ter entregado entre 4% e 40%, o que transforma a assinatura em aposta. As duas situações produzem exatamente a mesma média.

Variação comum e variação especial

Todo processo varia, e a variação tem duas origens que exigem tratamentos opostos.

Existe a variação comum, que é o ruído inerente ao modo como a empresa trabalha. Ela nasce da combinação normal entre pessoas, ferramentas, ambiente e método, aparece o tempo todo e é previsível dentro de uma faixa. Reduzi-la exige mudar o processo, e isso é decisão de quem responde pelo processo, não de quem executa a tarefa.

E existe a variação especial, que é a anomalia. Ela não pertence ao funcionamento normal, aparece por um evento específico, e é o que faz um projeto sair completamente da faixa esperada. Essa se resolve identificando e removendo a causa raiz.

Confundir as duas custa dinheiro nas duas direções. Tratar ruído como anomalia leva a mexer no processo sem necessidade, e mexer em processo estável costuma piorar o resultado em vez de melhorar. Tratar anomalia como ruído leva a conviver com um problema que tinha solução.

Nem todo sinal de alerta é um problema real

Vale registrar um efeito que quase ninguém considera: quanto mais sensível o critério de alarme, mais alarme falso ele produz. Mesmo com o critério mais conservador em uso, espera-se um alarme falso a cada algumas centenas de medições.

Uma empresa que reage a todo sinal acaba ajustando o processo por causa de ruído estatístico, e paga por isso em produtividade: cada ajuste desnecessário consome esforço de gente qualificada e desorganiza o trabalho de quem estava executando.

Por que software não se comporta como uma fábrica

Há uma diferença que separa software de manufatura e que costuma ser ignorada quando essas técnicas chegam ao desenvolvimento. Máquina se desgasta com o tempo, e por isso o processo industrial tende a piorar se ninguém intervier. Pessoa faz o contrário: acumula conhecimento, domina melhor o produto, e melhora. Uma equipe classificada como júnior em um projeto pode se comportar como sênior no seguinte.

A consequência prática é que os agrupamentos de dados históricos não são fixos e precisam ser reavaliados periodicamente, sob pena de a empresa decidir hoje com uma fotografia que já não descreve a equipe que ela tem.

O que significa um processo estar sob controle estatístico?

Aqui está a distinção que decide o pregão, e ela é a mais mal compreendida da área.

Um processo está sob controle estatístico, ou seja, é estável, quando só existe variação comum atuando sobre ele. Ele é previsível: dá para dizer, com base no histórico, dentro de que faixa o próximo projeto vai cair. Um processo é capaz quando essa faixa cabe dentro do que o cliente ou o contrato exige.

São duas perguntas diferentes, e a segunda não decorre da primeira. Um processo pode ser perfeitamente estável e completamente incapaz. É o caso de uma operação que entrega com regularidade admirável uma margem que oscila entre 12% e 18%: ela é previsível, ela é confiável, e ela não fecha o pregão de 20%.

Duas técnicas respondem a essas duas perguntas, e é importante não confundir o que cada uma faz. O gráfico de controle acompanha o desempenho ao longo do tempo e mostra se o processo está estável, marcando os limites dentro dos quais ele naturalmente opera. A análise de capacidade compara esses limites com o que o contrato exige e responde se ele é capaz. Aplicar a segunda sem ter passado pela primeira não faz sentido, porque não há como avaliar a capacidade de um processo que ainda está sob efeito de anomalias.

A voz do processo e a voz do cliente

A forma mais clara de enxergar isso é reconhecer que existem duas vozes falando sobre o mesmo processo, e que elas não se conversam sozinhas.

A voz do processo sai do histórico da própria empresa. São os limites dentro dos quais ela realmente opera, calculados a partir do que ela já fez, e nenhuma reunião muda esses limites.

A voz do cliente sai do contrato, da especificação, do edital. É o que precisa ser cumprido, e foi definido sem consultar a capacidade de ninguém.

Quando as duas coincidem, o processo é capaz. Quando a voz do cliente é mais exigente do que a voz do processo comporta, existe risco, e o risco passa a ser conhecido antes de assinar em vez de descoberto na entrega.

Gráfico de controle da margem por projeto: todos os pontos ficam dentro dos limites de controle, entre 12,2% e 18,3%, e nenhum alcança os 20% exigidos pelo contrato
Os limites de controle saem do histórico da empresa. O limite de 20% sai do contrato. O processo é estável e, ainda assim, incapaz.

O mesmo raciocínio em serviços: o SLA é a voz do cliente

Nada disso é exclusivo de projeto de desenvolvimento. Em uma operação de sustentação, a voz do cliente tem nome e está escrita no contrato: é o SLA.

Considere um contrato de suporte que exige resolução de chamados críticos em até quatro horas, com apuração mensal e multa em caso de descumprimento. A pergunta de negócio muda de forma mas não de natureza: a operação consegue sustentar esse acordo, ou vai pagar multa em alguns meses e lucrar em outros?

A resposta segue o mesmo percurso. Primeiro, o tempo de resolução dos chamados é acompanhado ao longo do tempo para verificar se a operação é estável, ou se existem anomalias, como um pico em determinado turno ou depois de determinada entrada em produção. Depois, a faixa real de tempo de resolução é comparada com as quatro horas do contrato. E aqui aparece o mesmo desencontro do pregão: uma operação pode ser exemplarmente regular e ainda assim regular acima do que foi prometido.

As medidas mudam, o método não.

O que se quer controlar Em projetos de software Em serviços de TI
Compromisso do contrato Prazo, escopo e margem do projeto SLA de atendimento e resolução
Qualidade da entrega Percentual de aprovação nos testes Chamados resolvidos dentro do prazo
Retrabalho Defeito que escapa e volta do cliente Taxa de reabertura de chamado
Produtividade Esforço por ponto de função Esforço por chamado atendido
Sinal de anomalia Projeto fora da faixa histórica Pico de tempo de resolução em um turno

A taxa de reabertura merece destaque, porque é o retrabalho de serviços com outro nome: chamado que volta é trabalho pago duas vezes e SLA consumido em dobro.

Da meta de margem até a medida que dá para acompanhar

Saber que o processo não é capaz não resolve nada sozinho. A questão seguinte é o que fazer, e ela começa por uma tradução que a maioria das empresas nunca faz: transformar o objetivo de negócio em algo que dê para medir durante a execução, e não apenas no fechamento.

Margem é resultado final. Quando a margem aparece, o projeto acabou e não há mais decisão a tomar. Ela precisa ser conectada a algo que se manifeste cedo.

Retrabalho, produtividade e prazo são o mesmo problema

Em desenvolvimento de software, a maior parte do que corrói margem tem um nome conhecido: retrabalho. Refazer o que já estava pronto consome esforço que ninguém orçou, e consome duas vezes, porque atrasa o que viria depois.

É por isso que retrabalho, produtividade e prazo não são três problemas separados. São o mesmo problema medido em três lugares: o esforço que se gasta refazendo é esforço que não produz entrega nova, e a fila que se forma atrás dele é o atraso que o cliente enxerga.

E retrabalho, em larga medida, é consequência de defeito que escapou das fases anteriores e voltou do cliente. Existe um indicador que se manifesta antes do prejuízo e que mede exatamente isso: o percentual de aprovação nos testes. Ele aparece durante o projeto, muito antes do fechamento financeiro, e serve como aviso antecipado.

A cadeia fica assim: a margem depende do retrabalho, o retrabalho consome produtividade e prazo, e ambos dependem do defeito que escapa, que por sua vez aparece no percentual de aprovação nos testes. É esse encadeamento que permite acompanhar em agosto uma meta que só seria conhecida em dezembro.

As organizações de alta maturidade do CMMI fazem essa tradução de forma sistemática, e é uma das diferenças práticas mais visíveis entre elas e as demais. Não se trata de medir mais coisas. Trata-se de medir as poucas coisas que comprovadamente antecipam o resultado que interessa.

O que de fato move o resultado da entrega?

Com a medida definida, vem a pergunta que dá para responder com dados: o que dentro do processo determina esse resultado?

A técnica que responde a esse tipo de pergunta é a análise de regressão, que verifica se uma variável permite prever outra e com que força. Em um conjunto de onze projetos com histórico consistente, testou-se a relação entre a profundidade dos testes de produto, medida pela quantidade de critérios de teste por ponto de função, e o percentual de aprovação nos testes de aceitação do cliente.

A relação se confirmou. O modelo explica 75,1% da variação observada no percentual de aprovação, e a significância estatística ficou em 0,001, muito abaixo do limite de 0,05 usado como referência. Em linguagem de decisão: se não houvesse relação, a chance de observar um resultado desses seria de 0,1%, e a profundidade do teste prevê a qualidade percebida pelo cliente.

Diagrama de dispersão dos onze projetos relacionando critérios de teste por ponto de função e percentual de aprovação no teste de aceitação, com linha de tendência ascendente
A profundidade do teste explica 75,1% da variação na aprovação do cliente. Os pontos são ilustrativos e reproduzem os parâmetros do estudo.

Isso muda o tipo de conversa que a empresa consegue ter. Deixa de ser uma discussão sobre se vale a pena testar mais, que é sempre uma disputa de opinião entre quem defende prazo e quem defende qualidade, e passa a ser uma estimativa: aumentar a profundidade do teste nesta medida move a aprovação nesta outra.

Compor o processo: o que a alta maturidade faz diferente

Chega então a decisão que caracteriza uma operação madura, e que é diferente de adaptar um processo padrão ao projeto.

Adaptar é ajustar o que já existe às circunstâncias. Compor é escolher, entre alternativas conhecidas de execução, a combinação que faz o processo alcançar o objetivo, sabendo antecipadamente o que cada alternativa entrega. As escolhas em jogo são concretas: a composição da equipe, o tipo e a intensidade das revisões, o grau de automação dos testes, a experiência exigida para determinadas tarefas.

É aqui que a empresa descobre que a mesma organização tem vários processos possíveis, com capacidades diferentes. Uma equipe com mais da metade de profissionais seniores trabalhando sobre um framework consolidado produz um processo capaz de sustentar a margem do pregão. A mesma empresa, alocando uma equipe majoritariamente júnior e sem automação de teste, produz um processo que não sustenta. Não são duas empresas, são duas composições, e a diferença entre elas é mensurável antes da escolha.

Quando as combinações são muitas para comparar uma a uma

Quando as alternativas são muitas e interagem entre si, comparar uma a uma deixa de ser viável. Nesse ponto entra a simulação de Monte Carlo, que testa milhares de combinações possíveis a partir das faixas de desempenho conhecidas de cada alternativa e devolve a probabilidade de alcançar o objetivo em cada arranjo. É o que permite responder não apenas se dá para bater a margem, mas com que chance, e quais fatores mais contribuem para a variação do resultado. Esses fatores costumam ser os melhores candidatos a receber investimento de melhoria.

Quem não faz essa análise decide por intuição e chama isso de experiência. Quem faz decide por evidência e consegue justificar a decisão para o cliente, para o sócio e para o próprio time.

Como comprovar que a melhoria funcionou?

Suponha que a empresa decida introduzir inspeção de código como parte da composição escolhida. A pergunta que vem em seguida é a que quase nunca recebe resposta honesta: funcionou?

O caminho habitual é comparar a média antes com a média depois e comemorar a diferença. Isso é frágil por um motivo específico. Antes de comparar dois conjuntos de dados, é preciso verificar se eles se comportam de maneira compatível, e é isso que faz o teste de normalidade. Se essa condição não se confirma e a comparação de médias é feita assim mesmo, comparam-se coisas de naturezas diferentes, e a conclusão não se sustenta. É a diferença entre uma análise e uma impressão bem apresentada.

No conjunto analisado, os dados não passaram no teste de normalidade, e por isso se aplicou o teste de Mann-Whitney, apropriado justamente para comparar dois grupos quando essa condição não se verifica. O resultado: entre os projetos sem inspeção de código, o percentual de aprovação nos testes de produto ficou em 69% na mediana. Entre os projetos com inspeção, chegou a 100%. A significância ficou em 0,0012.

Comparação da mediana de aprovação nos testes de produto: 69% nos projetos sem inspeção de código e 100% nos projetos com inspeção
O ganho de 31 pontos percentuais na mediana foi verificado pelo teste de Mann-Whitney, com p igual a 0,0012.

A conclusão que a empresa pode levar à diretoria não é que a inspeção de código parece ter ajudado. É que houve aumento comprovado do percentual de aprovação, e que a diferença observada não se explica por acaso.

E quando o resultado fica abaixo do esperado

Quando o resultado fica abaixo do esperado, o percurso é outro e também tem técnica própria. O gráfico de Pareto ordena os problemas por frequência e impacto e mostra em quais deles vale concentrar esforço, evitando que a empresa gaste energia com o que aparece muito e custa pouco. O diagrama de causa e efeito organiza as hipóteses de origem do problema antes de sair corrigindo. São ferramentas simples e o valor delas está em impedir que a ação corretiva seja escolhida pela urgência de quem reclamou mais alto.

Vale um complemento que costuma passar batido: quando o processo surpreende para melhor, isso também é sinal de que algo fora do previsto aconteceu, e também merece investigação. A diferença é o objetivo. No caso do problema, investiga-se para impedir que se repita. No caso do resultado excepcional, investiga-se para descobrir o que foi feito de diferente e transformar aquilo em prática padrão.

O que muda na decisão de entrar ou não no negócio

De volta ao pregão. A empresa agora sabe três coisas que antes não sabia.

Sabe qual é a faixa real de margem que o processo atual entrega, e não apenas a média. Sabe que existe uma composição específica de equipe e de práticas que torna o processo capaz de sustentar os 20% exigidos. E sabe, com evidência, quanto a inspeção de código contribui para esse resultado.

Com isso, a decisão deixa de ser uma aposta e passa a ter três saídas legítimas. A empresa entra no pregão com a composição que comprovadamente atende, e assume o compromisso sabendo o que está assumindo. A empresa entra com ressalva, negociando prazo ou escopo com um argumento que se sustenta em dado. Ou a empresa não entra, porque nenhuma composição disponível alcança a margem, e recusar é a decisão correta.

Essa terceira saída é a mais subestimada. Uma organização que ainda não chegou a esse nível de análise costuma abandonar a oportunidade por precaução, sem saber dizer se perderia dinheiro de fato, ou pior, aceitar e descobrir o prejuízo com o contrato em andamento. Saber recusar com fundamento, e saber aceitar com fundamento, é o retorno concreto de todo esse trabalho.

O mesmo vale para o contrato de suporte. Assumir um SLA de quatro horas sabendo que a operação atual sustenta seis é escolher pagar multa. Assumir sabendo que sustenta três é vender previsibilidade, e cobrar por ela.

Por onde começa a alta maturidade em projetos de software

Antes de qualquer análise, um passo que costuma ser tratado como detalhe e que decide a validade de tudo: verificar se o dado é confiável.

O primeiro passo é conferir a própria medição

O número que chega até a planilha não contém apenas a variação do processo. Ele contém também a variação de quem mediu. Em uma fábrica, isso se refere ao instrumento. Em software e em serviços, a medição é feita por pessoas: alguém classifica a severidade de um defeito, alguém aponta o esforço gasto, alguém registra o horário de abertura e de fechamento de um chamado.

Se dois profissionais classificam o mesmo defeito de formas diferentes, ou se o mesmo profissional classifica de um jeito hoje e de outro na semana seguinte, a base histórica está medindo o avaliador junto com o processo.

Existe técnica específica para isso, chamada análise do sistema de medição, que separa duas coisas: o quanto uma mesma pessoa varia ao medir a mesma coisa repetidas vezes, e o quanto pessoas diferentes variam ao medir a mesma coisa. Conforme o resultado, a correção pode ser alinhamento e treinamento de quem mede, ou mudança na forma de medir.

A consequência de pular essa etapa é séria e acontece com frequência: a empresa condena um processo que estava saudável, ou aprova um que não estava, porque o problema estava na medição e não no processo. Por isso essa verificação é a primeira coisa a fazer, mesmo sendo quase sempre a última a ser lembrada.

Os quatro pré-requisitos para começar

O trabalho estruturado de melhoria de processo começa, com o dado confiável, por quatro pré-requisitos verificáveis. A organização precisa coletar e usar dados sobre o próprio trabalho. Precisa ter processos definidos que especifiquem como e quando esses dados são coletados. Precisa executar esses processos de forma consistente, com as adaptações acontecendo de maneira controlada. E precisa analisar o histórico que acumulou, em vez de apenas armazená-lo.

Quem já usa Six Sigma ou Kanban não começa do zero

A metodologia Six Sigma mostra que as práticas de alta maturidade não substituem o que a empresa já pratica: o ciclo DMAIC organiza a melhoria na mesma lógica de medir, analisar e controlar.

A ISO 13053, que padroniza esse ciclo, é a referência para reconhecer as equivalências.

O Kanban Maturity Model faz o mesmo para quem opera com Kanban, com um mapeamento direto para os níveis do CMMI.

A Kanban University mantém o modelo e publica esse mapeamento.

Uma observação final sobre ordem de investimento. A tentação natural é começar pela ferramenta, porque ferramenta é o que se compra com decisão rápida. É a ordem errada. Ferramenta acelera o processo que já existe, seja ele bom ou ruim. Sem medição confiável e sem processo consistente, o resultado é chegar mais rápido à conclusão errada.

Implementar processos de alto nível de maturidade não é um projeto com data de encerramento. É uma revisão contínua do modo como a organização trabalha, sustentada por análise, em busca de um desempenho que se conhece e se controla. A diferença entre uma empresa que faz isso e uma que não faz aparece exatamente no momento em que alguém pergunta se dá para entregar dentro da margem, ou dentro do SLA, e alguém precisa responder.

As empresas brasileiras certificadas em CMMI que percorreram esse caminho relatam ganhos concretos em previsibilidade, produtividade e qualidade de entrega, e vale conhecer o que elas alcançaram.

Fale com a Promove para avaliar por onde começar, se a sua empresa precisa responder a esse tipo de pergunta e hoje só tem a média histórica como argumento.


Perguntas frequentes sobre controle estatístico de processo

O que é Controle Estatístico do Processo (CEP)?
É o conjunto de técnicas que mede como um processo se comporta ao longo do tempo, separa a variação normal do funcionamento daquilo que é anomalia, e permite prever o que o processo vai entregar antes da entrega acontecer. Em uma empresa de TI, serve para responder se a operação consegue cumprir o prazo, o custo e a qualidade que estão sendo prometidos no contrato, com base no que ela comprovadamente entrega, e não em estimativa apoiada em experiência pessoal.
O que significa um processo estar sob controle estatístico?
Significa que apenas a variação comum, aquela inerente ao modo como a empresa trabalha, está atuando sobre ele. Nesse estado o processo é previsível: dá para dizer, com base no histórico, dentro de que faixa o próximo projeto ou chamado vai cair. Atenção a uma confusão frequente: estar sob controle estatístico não garante que o processo atenda ao contrato. Um processo pode ser perfeitamente estável e mesmo assim incapaz de entregar dentro do que o cliente exige.
Precisa estar no nível 4 do CMMI para usar controle estatístico de processo?
Os níveis de maturidade do MPS.BR e os do CMMI seguem o mesmo raciocínio: não é preciso estar no nível 4 para começar. As técnicas de análise podem ser aplicadas assim que a empresa tiver histórico confiável e processos executados de forma consistente. O que os níveis mais altos acrescentam é a institucionalização: deixa de ser iniciativa de uma equipe e passa a ser o modo como a organização decide. Na prática, muitas empresas começam a usar essas análises durante a preparação para a avaliação, e não depois dela.
Quantos projetos de histórico são necessários?
Não existe número fixo, e desconfie de quem oferece um. O que determina a quantidade é a variação dos próprios dados e a precisão exigida pela decisão. Conjuntos pequenos permitem análises válidas desde que a técnica escolhida seja compatível com o tamanho da amostra, e é justamente por isso que a escolha da técnica importa. O erro comum não é ter poucos dados, é aplicar a um conjunto pequeno uma técnica que exigia um conjunto grande.
Isso funciona em equipe ágil?
Funciona, e a preocupação com capacidade de resposta rápida faz parte da avaliação de qualquer melhoria de processo. Nada aqui exige processo pesado ou documentação extensa. Exige que se saiba o que está sendo medido, que a medição seja consistente e que as decisões considerem a variação. Organizações que trabalham com Kanban têm um caminho adicional pelo Kanban Maturity Model, que faz mapeamento direto com o CMMI.
Isso funciona em projeto curto ou em operação de sustentação?
Sim, com dois cuidados. Os projetos ou contratos comparados precisam ser semelhantes entre si em domínio, plataforma e composição de equipe, caso contrário a comparação perde sentido. E o foco deve estar em objetivos de fim de ciclo, com granularidade menor nos subprocessos analisados. Quando cada projeto isolado gera pouco dado, é possível agregar instâncias semelhantes para viabilizar a análise, mantendo o dado desagregado disponível para acompanhar cada caso individualmente. Operações de sustentação costumam ter vantagem aqui, porque geram volume alto de eventos repetidos.
E se os dados da empresa não forem confiáveis?
Esse é o ponto de partida e não um impedimento. A análise do sistema de medição avalia o quanto da variação observada vem do processo e o quanto vem da forma de medir, e indica se o caso pede alinhamento entre as pessoas que medem ou mudança no modo de medir. Descobrir que a base atual não sustenta decisão é um resultado útil: evita que a empresa decida com confiança sobre um número que não descreve a realidade.

Mariano Montoni

É o único brasileiro certificado como High Maturity Lead Appraiser do CMMI. Possui mais de 20 anos de experiência em impulsionar a excelência nos processos de empresas de tecnologia, realizando mais de 150 avaliações oficiais nos modelos CMMI e MPS.BR. Com a certificação Black Belt em Lean Six-Sigma, também é capaz de aplicar técnicas avançadas de melhoria de processos.

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